O pai nerd

Preparando a Geração Z para o mundo
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    23/03/2010Moda

    Pai nerd que é pai nerd vasculha a Web à caça de brinquedos e roupinhas que insiram a criança nesse universo desde cedo — e de quebra afirmem a vasta cultura inútil do abobado chefe da família. Por exemplo, a roupinha da Threadless que encomendei esses dias:

    Roupinha de bebê

    Porque, afinal, como os automóveis, as crianças servem para expor a personalidade dos pais.

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    19/03/2010Gravidez, Saúde

    Anda circulando entre os casais grávidos do Rio Grande do Sul uma dieta de restrição de polifenóis. Uma pesquisa do médico Paulo Zielinsky sugere que consumir alimentos como uvas, laranjas, maçãs, tomates com casca, azeite de oliva e outras fontes de polifenóis poderia inibir a produção de prostaglandina na placenta nos últimos três meses de gestação e causar vasoconstrição no ducto arterioso. Essa vasoconstrição poderia sobrecarregar o coração do feto e causar hipertensão pulmonar após o nascimento.

    Há montes de grávidas evitando tudo o que é saudável, porque a dieta foi amplamente divulgada na imprensa. A lista de ingredientes, sempre crescente, é a seguinte:

    • Uva e derivados
    • Erva-mate
    • Chá verde
    • Chá preto
    • Chá de frutas ou ervas
    • Chocolate
    • Laranja e derivados
    • Maçã vermelha com casca
    • Morangos crus
    • Lima
    • Grão de soja
    • Ameixa preta
    • Cebola roxa crua
    • Hortelã
    • Cereja
    • Amora
    • Couve crua
    • Tempero verde
    • Alcaparras
    • Azeite de oliva
    • Espinafre
    • Brócolis
    • Tomate com casca

    A primeira pergunta que me veio à cabeça ao saber dessa lista foi: como diabos existe algum ser humano vivo? Se alimentos tão cotidianos quanto esses causassem algum mal aos fetos, o número de natimortos deveria ser muito mais alto em lugares como a Serra Gaúcha (uvas), Grécia (azeite de oliva), Itália (tomate), Estados Unidos (maçã) ou Japão (soja). Além disso, as pessoas não são burras. Deveria haver sabedoria popular indicando que tomar suco de uva ou comer amora é ruim para a gravidez. Nunca ouvi falar nada disso. Suspeitei de imediato da validade da pesquisa.

    Um dos melhores obstetras e uma das melhores pediatras de Porto Alegre — com quem conversei informalmente sobre a dieta e cujos nomes portanto não divulgo — tiveram acesso à pesquisa e dizem ter encontrado problemas metodológicos. Os resultados de um estudo num universo restrito de pacientes e alimentos foram extrapolados para grávidas do mundo inteiro e para diversos vegetais com alta concentração de polifenóis. Os estudos foram conduzidos apenas no Rio Grande do Sul e verificaram apenas a influência do chá verde, erva-mate e suco de uva na gravidez, não a dos outros alimentos listados. Na opinião destes médicos, trata-se de um erro epidemiológico. Muitos anos e muitos estudos diferentes seriam necessários para poder emitir uma recomendação como essa dieta de restrição de polifenóis.

    Além disso, nenhum outro estudo relevante em nenhum outro país encontrou esse tipo de correlação entre o consumo de alimentos com polifenóis e problemas no ducto arterioso. O American Congress of Obstetricians and Gynecologists, que analisa conjuntos de pesquisas para emitir recomendações, não sugere nada nesse sentido. É preciso ser no mínimo cauteloso quanto a resultados de estudos isolados.

    Seguir essa dieta à risca pode inclusive ser prejudicial ao feto, porque os alimentos proibidos contêm nutrientes valiosos. Os efeitos de princípios ativos são em geral cumulativos, ou seja, não é um tomate com casca ou um copo de suco de laranja que vai causar consequências, mas o consumo frequente de muitos alimentos com polifenóis. De qualquer modo, seria preciso investigar a dinâmica de absorção dessas substâncias pelo corpo da mãe e do bebê para cada um dos alimentos listados. Pode ser que, no fim das contas, muito pouco do princípio ativo ultrapasse a barreira da placenta e chegue ao feto.

    É claro, nada disso significa que as futuras mães não devam seguir a dieta, se assim acharem melhor. A médica cujas opiniões são críticas ao estudo disse que, se ouvisse uma recomendação como essa estando grávida, seguiria as instruções, mesmo sabendo terem pouca base científica. Nenhum pai ou mãe quer se sentir culpado por algum problema que o filho venha a ter. Mesmo que o problema não tenha relação alguma com polifenóis, sempre ficará aquela ponta de dúvida, caso o pior aconteça. Daí, aliás, o poder dos médicos; e também o motivo pelo qual devem tomar cuidado com as recomendações aos pacientes.

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    11/03/2010Educação

    Aproveitando enquanto posso falar livremente a respeito de educação e até mesmo pensar que tenho todas as soluções, recomendo muito a leitura desta entrevista com Aldo Naouri, na qual o pediatra franco-libanês explica a diferença entre educar os filhos ou tentar seduzi-los para que o amem. Um trecho:

    – Diz que os pais esqueceram o seu papel de educadores porque querem ser amados pelas crianças. Por que é que isto acontece?
    – Como todas as crianças, tiveram conflitos com os pais. E como todas as crianças, amam-nos mas guardaram muitos ressentimentos. E não querem que os seus filhos tenham esse tipo de ressentimento em relação a eles. E pensam que a melhor maneira de o fazer é seduzir a criança para que ela o ame. O que é um enorme erro. Porque nesse momento, a relação vertical inverte-se. A hierarquia fica de pernas para o ar, e quando isso acontece, destruímos a crianças.
    – O problema é que as pessoas confundem autoridade com violência. Autoridade é fazer-se obedecer, não é dar uma palmada, que o senhor aliás desaprova.
    – Completamente! Não aprovo palmadas de que género for, nem na mão nem no rabo. Ter autoridade não é agredir a criança. Ter autoridade é dizer: “Quero isto”, e esperar ser obedecido. Quero que faças isto porque eu disse, e pronto. Autoridade é só isto, é assumir o seu dever. Não vale a pena ser violento, aliás porque a criança sente a autoridade. É quando o pai ou a mãe não está seguro do seu poder que a criança tenta ir mais longe. Quando há uma decisão que é assumida pelos pais, ela cumpre-a.

    Meu maior medo como futuro pai é não ser capaz de educar minha filha para ser uma pessoa centrada, consciente de seus limites, altruísta e compassiva. Uma menina respeitadora, enfim — não da autoridade ou do poder, mas do ser humano existente em cada indivíduo, seja rico ou pobre, preto ou branco, homem ou mulher, idoso ou jovem. Uma menina que não tente ganhar as coisas no grito ou no jeitinho.

    O problema em tentar seduzir os filhos me parece ser o fato de isto ensinar às crianças, justamente, que podem conseguir qualquer coisa na base do charme ou da intimidação. Do ponto de vista da ética e da moral, é desejável que as pessoas alcancem suas conquistas pelo mérito e dentro dos limites estabelecidos pelas regras de civilidade. Dificilmente se consegue ensinar isso a uma criança e parecer simpático o tempo todo.

    Os pais, porém, têm uma responsabilidade para com seus filhos e para com a sociedade. As crianças não se educam sozinhas. Esse é um presente que apenas os pais podem dar e, tenho certeza, um dia minha filha será tão grata a mim por exercer a autoridade paterna quanto eu sou aos meus pais por terem me restringido quando necessário.

    Mas, bem, minha filha ainda não nasceu e talvez eu tenha de engolir todas essas palavras em poucos meses.

    A indicação da entrevista veio do Alex Primo, outro futuro pai.

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