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  • A dieta dos polifenóis é bobagem

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    19/03/2010Gravidez, Saúde

    Anda circulando entre os casais grávidos do Rio Grande do Sul uma dieta de restrição de polifenóis. Uma pesquisa do médico Paulo Zielinsky sugere que consumir alimentos como uvas, laranjas, maçãs, tomates com casca, azeite de oliva e outras fontes de polifenóis poderia inibir a produção de prostaglandina na placenta nos últimos três meses de gestação e causar vasoconstrição no ducto arterioso. Essa vasoconstrição poderia sobrecarregar o coração do feto e causar hipertensão pulmonar após o nascimento.

    Há montes de grávidas evitando tudo o que é saudável, porque a dieta foi amplamente divulgada na imprensa. A lista de ingredientes, sempre crescente, é a seguinte:

    • Uva e derivados
    • Erva-mate
    • Chá verde
    • Chá preto
    • Chá de frutas ou ervas
    • Chocolate
    • Laranja e derivados
    • Maçã vermelha com casca
    • Morangos crus
    • Lima
    • Grão de soja
    • Ameixa preta
    • Cebola roxa crua
    • Hortelã
    • Cereja
    • Amora
    • Couve crua
    • Tempero verde
    • Alcaparras
    • Azeite de oliva
    • Espinafre
    • Brócolis
    • Tomate com casca

    A primeira pergunta que me veio à cabeça ao saber dessa lista foi: como diabos existe algum ser humano vivo? Se alimentos tão cotidianos quanto esses causassem algum mal aos fetos, o número de natimortos deveria ser muito mais alto em lugares como a Serra Gaúcha (uvas), Grécia (azeite de oliva), Itália (tomate), Estados Unidos (maçã) ou Japão (soja). Além disso, as pessoas não são burras. Deveria haver sabedoria popular indicando que tomar suco de uva ou comer amora é ruim para a gravidez. Nunca ouvi falar nada disso. Suspeitei de imediato da validade da pesquisa.

    Um dos melhores obstetras e uma das melhores pediatras de Porto Alegre — com quem conversei informalmente sobre a dieta e cujos nomes portanto não divulgo — tiveram acesso à pesquisa e dizem ter encontrado problemas metodológicos. Os resultados de um estudo num universo restrito de pacientes e alimentos foram extrapolados para grávidas do mundo inteiro e para diversos vegetais com alta concentração de polifenóis. Os estudos foram conduzidos apenas no Rio Grande do Sul e verificaram apenas a influência do chá verde, erva-mate e suco de uva na gravidez, não a dos outros alimentos listados. Na opinião destes médicos, trata-se de um erro epidemiológico. Muitos anos e muitos estudos diferentes seriam necessários para poder emitir uma recomendação como essa dieta de restrição de polifenóis.

    Além disso, nenhum outro estudo relevante em nenhum outro país encontrou esse tipo de correlação entre o consumo de alimentos com polifenóis e problemas no ducto arterioso. O American Congress of Obstetricians and Gynecologists, que analisa conjuntos de pesquisas para emitir recomendações, não sugere nada nesse sentido. É preciso ser no mínimo cauteloso quanto a resultados de estudos isolados.

    Seguir essa dieta à risca pode inclusive ser prejudicial ao feto, porque os alimentos proibidos contêm nutrientes valiosos. Os efeitos de princípios ativos são em geral cumulativos, ou seja, não é um tomate com casca ou um copo de suco de laranja que vai causar consequências, mas o consumo frequente de muitos alimentos com polifenóis. De qualquer modo, seria preciso investigar a dinâmica de absorção dessas substâncias pelo corpo da mãe e do bebê para cada um dos alimentos listados. Pode ser que, no fim das contas, muito pouco do princípio ativo ultrapasse a barreira da placenta e chegue ao feto.

    É claro, nada disso significa que as futuras mães não devam seguir a dieta, se assim acharem melhor. A médica cujas opiniões são críticas ao estudo disse que, se ouvisse uma recomendação como essa estando grávida, seguiria as instruções, mesmo sabendo terem pouca base científica. Nenhum pai ou mãe quer se sentir culpado por algum problema que o filho venha a ter. Mesmo que o problema não tenha relação alguma com polifenóis, sempre ficará aquela ponta de dúvida, caso o pior aconteça. Daí, aliás, o poder dos médicos; e também o motivo pelo qual devem tomar cuidado com as recomendações aos pacientes.

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1 responses to “A dieta dos polifenóis é bobagem” RSS icon

  • Oi, Marcelo,
    Acho que você se lembra de mim. Sou a Tatiana Csordas, que trabalhou contigo na Revista Amanhã. Bem, descobri seu novo blog hoje e temos muito em comum, além do nome da mãe de sua filha. Eu tive bebê há 4 meses. A Diana nasceu superbem e quem fez o ecocardiograma dela foi justamente o Paulo Zielinsky. Ele é realmente a maior autoridade em cardiologia fetal do Estado e pesquisa o assunto há muito tempo (obviamente também pesquisei sobre ele). Ele é chefe da cardiologia fetal do Instituto de Cardiologia e na época consegui a própria pesquisa, publicada no Journal of Perionatalofy, no ano passado. Ele também desenvolveu outras pesquisas específicas, com erva mate, como você cita no seu texto. Mas essa me pareceu bem completa e séria. Também a recomendação de evitar esses alimentos (ou não abusar deles) é para o final da gravidez (a partir da 28ª semana). Eu tomei os cuidados indicados. Afinal, quando nos tornamos “pais” qualquer sacrifício vale à pena.
    Parabéns pelo blog e pela filha!


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