O pai nerd

Preparando a Geração Z para o mundo
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    17/05/2010Consumo, Cultura, Educação

    O Rogério Christofoletti, outro pai nerd, se viu com o mesmo problema que tenho enfrentado: encontrar bons livros sobre puericultura e pedagogia. Ele sugere Sob Pressão, de Carl Honoré, um ativista do Movimento Slow. Para quem quiser ter uma idéia da proposta de puericultura vagarosa, vale a pena ler essa entrevista com Honoré. Abaixo, um trecho traduzido por mim:

    Paternidade Slow é trazer equilíbrio para o lar. As crianças devem lutar e se esforçar por seu próprio bem, mas isso não significa que a infância tenha de ser uma corrida. Pais Slow dão a seus filhos tempo e espaço o bastante para explorar o mundo em seu próprio ritmo. Eles mantém a agenda familiar sob controle, de modo que todo mundo tenha tempo livre para descansar, refletir e estar junto. Eles aceitam que se virar do avesso para dar aos filhos o melhor de tudo pode não ser sempre a melhor política (porque isso priva os filhos de uma lição de vida muito mais útil, que é como aproveitar melhor o que você já tem). Paternidade Slow significa permitir que nossas crianças descubram quem elas são, em vez de quem nós gostaríamos que elas fossem. Significa deixar as coisas acontecerem, em vez de intervir e forçá-las. Significa aceitar que os tipos mais ricos de aprendizado e experiência muitas vezes não podem ser medidos ou apresentados lindamente num currículo. Pais Slow entendem que a puericultura não deve ser uma mistura de competição esportiva e desenvolvimento de produto. Não é um projeto; é uma jornada. Paternidade Slow é dar às crianças muito amor e atenção, sem impor condições.

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    11/03/2010Educação

    Aproveitando enquanto posso falar livremente a respeito de educação e até mesmo pensar que tenho todas as soluções, recomendo muito a leitura desta entrevista com Aldo Naouri, na qual o pediatra franco-libanês explica a diferença entre educar os filhos ou tentar seduzi-los para que o amem. Um trecho:

    – Diz que os pais esqueceram o seu papel de educadores porque querem ser amados pelas crianças. Por que é que isto acontece?
    – Como todas as crianças, tiveram conflitos com os pais. E como todas as crianças, amam-nos mas guardaram muitos ressentimentos. E não querem que os seus filhos tenham esse tipo de ressentimento em relação a eles. E pensam que a melhor maneira de o fazer é seduzir a criança para que ela o ame. O que é um enorme erro. Porque nesse momento, a relação vertical inverte-se. A hierarquia fica de pernas para o ar, e quando isso acontece, destruímos a crianças.
    – O problema é que as pessoas confundem autoridade com violência. Autoridade é fazer-se obedecer, não é dar uma palmada, que o senhor aliás desaprova.
    – Completamente! Não aprovo palmadas de que género for, nem na mão nem no rabo. Ter autoridade não é agredir a criança. Ter autoridade é dizer: “Quero isto”, e esperar ser obedecido. Quero que faças isto porque eu disse, e pronto. Autoridade é só isto, é assumir o seu dever. Não vale a pena ser violento, aliás porque a criança sente a autoridade. É quando o pai ou a mãe não está seguro do seu poder que a criança tenta ir mais longe. Quando há uma decisão que é assumida pelos pais, ela cumpre-a.

    Meu maior medo como futuro pai é não ser capaz de educar minha filha para ser uma pessoa centrada, consciente de seus limites, altruísta e compassiva. Uma menina respeitadora, enfim — não da autoridade ou do poder, mas do ser humano existente em cada indivíduo, seja rico ou pobre, preto ou branco, homem ou mulher, idoso ou jovem. Uma menina que não tente ganhar as coisas no grito ou no jeitinho.

    O problema em tentar seduzir os filhos me parece ser o fato de isto ensinar às crianças, justamente, que podem conseguir qualquer coisa na base do charme ou da intimidação. Do ponto de vista da ética e da moral, é desejável que as pessoas alcancem suas conquistas pelo mérito e dentro dos limites estabelecidos pelas regras de civilidade. Dificilmente se consegue ensinar isso a uma criança e parecer simpático o tempo todo.

    Os pais, porém, têm uma responsabilidade para com seus filhos e para com a sociedade. As crianças não se educam sozinhas. Esse é um presente que apenas os pais podem dar e, tenho certeza, um dia minha filha será tão grata a mim por exercer a autoridade paterna quanto eu sou aos meus pais por terem me restringido quando necessário.

    Mas, bem, minha filha ainda não nasceu e talvez eu tenha de engolir todas essas palavras em poucos meses.

    A indicação da entrevista veio do Alex Primo, outro futuro pai.

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