O pai nerd

Preparando a Geração Z para o mundo
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    11/03/2010Educação

    Aproveitando enquanto posso falar livremente a respeito de educação e até mesmo pensar que tenho todas as soluções, recomendo muito a leitura desta entrevista com Aldo Naouri, na qual o pediatra franco-libanês explica a diferença entre educar os filhos ou tentar seduzi-los para que o amem. Um trecho:

    – Diz que os pais esqueceram o seu papel de educadores porque querem ser amados pelas crianças. Por que é que isto acontece?
    – Como todas as crianças, tiveram conflitos com os pais. E como todas as crianças, amam-nos mas guardaram muitos ressentimentos. E não querem que os seus filhos tenham esse tipo de ressentimento em relação a eles. E pensam que a melhor maneira de o fazer é seduzir a criança para que ela o ame. O que é um enorme erro. Porque nesse momento, a relação vertical inverte-se. A hierarquia fica de pernas para o ar, e quando isso acontece, destruímos a crianças.
    – O problema é que as pessoas confundem autoridade com violência. Autoridade é fazer-se obedecer, não é dar uma palmada, que o senhor aliás desaprova.
    – Completamente! Não aprovo palmadas de que género for, nem na mão nem no rabo. Ter autoridade não é agredir a criança. Ter autoridade é dizer: “Quero isto”, e esperar ser obedecido. Quero que faças isto porque eu disse, e pronto. Autoridade é só isto, é assumir o seu dever. Não vale a pena ser violento, aliás porque a criança sente a autoridade. É quando o pai ou a mãe não está seguro do seu poder que a criança tenta ir mais longe. Quando há uma decisão que é assumida pelos pais, ela cumpre-a.

    Meu maior medo como futuro pai é não ser capaz de educar minha filha para ser uma pessoa centrada, consciente de seus limites, altruísta e compassiva. Uma menina respeitadora, enfim — não da autoridade ou do poder, mas do ser humano existente em cada indivíduo, seja rico ou pobre, preto ou branco, homem ou mulher, idoso ou jovem. Uma menina que não tente ganhar as coisas no grito ou no jeitinho.

    O problema em tentar seduzir os filhos me parece ser o fato de isto ensinar às crianças, justamente, que podem conseguir qualquer coisa na base do charme ou da intimidação. Do ponto de vista da ética e da moral, é desejável que as pessoas alcancem suas conquistas pelo mérito e dentro dos limites estabelecidos pelas regras de civilidade. Dificilmente se consegue ensinar isso a uma criança e parecer simpático o tempo todo.

    Os pais, porém, têm uma responsabilidade para com seus filhos e para com a sociedade. As crianças não se educam sozinhas. Esse é um presente que apenas os pais podem dar e, tenho certeza, um dia minha filha será tão grata a mim por exercer a autoridade paterna quanto eu sou aos meus pais por terem me restringido quando necessário.

    Mas, bem, minha filha ainda não nasceu e talvez eu tenha de engolir todas essas palavras em poucos meses.

    A indicação da entrevista veio do Alex Primo, outro futuro pai.

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    24/02/2010Confessionais, Gravidez

    Nenhum título para o primeiro texto de um blog dedicado à experiência de ser pai é mais adequado do que esse título-padrão criado como teste pela equipe de desenvolvimento do WordPress.

    Em novembro de 2009, descobrimos que a Tati está grávida. Em um instante, o instante após ler o resultado do exame na Web, toda a minha perspectiva sobre a vida mudou.

    Fui percebendo aos poucos. O primeiro sinal foi uma resistência ainda mais forte a cruzar qualquer rua com o semáforo para pedestres fechado ou fora da faixa de segurança. A princípio, senti-me um tanto bobo. Ontem, atravessava a avenida Protásio Alves com a mãozinha vermelha acesa, se os próximos carros estivessem a uma distância segura. Hoje, nenhuma distância me parece suficientemente segura.

    Minha vida não é mais apenas minha. Todas as minhas ações passaram a ser condicionadas pela existência de um embrião com pouco mais de dois milímetros. Um grão de arroz. Um grão de arroz embebido em arsênico teria menos efeito sobre minha existência do que um grão de arroz alojado no útero da minha mulher.

    Quem diz que o homem não está preparado para a paternidade não é homem, ou não tem filhos.

    Um conjunto de números relativos a um hormônio presente no sangue da Tati, apresentados numa tela eletrônica, fez disparar meu sentido de autopreservação. Também fez disparar meus níveis de felicidade. Estou mais apaixonado que nunca pela vida. Embora esteja preocupado em ter condições físicas e materiais de criar meu filho, essa preocupação vem acompanhada de uma confiança inédita no mundo.

    Vai dar certo. Nenhum revés parece capaz de me abalar. Farei o que for preciso e isso é tudo. Se o mundo for tomado por uma praga zumbi e os mortos-vivos cercarem meu prédio, não vacilarei: vou tranquilamente preparar todas as armas caseiras possíveis do Anarchist Cookbook e arrancar as cabeças desmortas que ousarem cruzar a porta de casa. Se tiver de limpar fossas para o resto da vida, para alimentar meu filho, vou até assoviar enquanto trabalho.

    Se tem homens por aí que não parecem preparados para a paternidade, a culpa não é da biologia e talvez até seja um pouco da cultura narcisista contemporânea, mas é principalmente um problema de personalidade individual. Não há como um homem emocionalmente saudável não se sentir o maior dos homens ao saber que será pai.

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